Os moinhos do Paiva

Moinhos do Paiva – ruínas duma cultura milenar

“Foi lá no moinho d’água
Que conheci a morena
De quem eu me enamorei
Hoje
Quando eu conto
As minhas mágoas
Ela nem se quer se lembra
De que por ela chorei

Mas o tempo foi passando
E ela nem apercebeu
Que a velhice foi chegando
Matando o orgulho seu
Moinho d’água rolando
Lembrando o que aconteceu”

Flávio José, Moinho D’água

Se há testemunhos duma economia e duma cultura muito antigas, que se mantiveram em funcionamento nos meios rurais, até há muito pouco tempo, são, sem sombra de dúvida, os moinhos de água. Certos autores apontam o seu aparecimento para o século II da nossa era, portanto, no auge do domínio do Império Romano. Ter-se –ão disseminado, a partir dessa data, por todo o vasto território controlado pelas autoridades romanas.

Vitais para a vida das populações do campo, no Norte e Centro do País, durante muitos séculos, já que era aí que moíam o milho (em grande parte), mas também o centeio e o trigo, com que confeccionavam o pão, alimento fundamental, e até pratos muito apreciados nos ambientes rurais, estas pequenas unidades artesanais passam a estar ameaçadas de se tornarem obsoletas, quando as moagens industriais, em meados do século XX, começam a abastecer de farinha as pequenas padarias que, entretanto, se instalam em aldeias que já beneficiam de acessos razoáveis e passam a fornecer o pão (já não de milho, mas, essencialmente, de trigo) às pessoas que a elas recorrem.

Nas últimas décadas, com as estradas a cobrirem, pouco a pouco, todo o território, tornando fácil a distribuição do pão, que todos os dias “bate à porta” dos habitantes da aldeia mais longínqua; com alguma melhoria do poder de compra das pessoas mais carenciadas, permitindo-lhes adquirir, sem grande esforço, esse precioso alimento; com o abandono crescente dos campos, onde, precisamente, se cultivavam os cereais, foi declarada a “sentença de morte” dos velhos moinhos. Deixam de trabalhar, porque já não precisos; ficam ao abandono, entram em ruína progressiva, em cada ano que passa. Muitos deles já não tem portas, as mós foram levadas para a construção de casas ou então para decoração das mesmas.

Estamos, como é obvio, focalizados nos moinhos do Paiva e seus afluentes, e apenas numa extensão da margem esquerda que, grosso modo, cobre as aldeias ribeirinhas de Ameixiosa, Nodar e Sequeiros, do concelho de S. Pedro do Sul e na zona do Sonzo, da margem direita, junto a Nodar, mas do concelho de Castro Daire, espaço esse que conhecemos quando os moinhos trabalhavam em pleno, e agora, em que todos estão em ruína e em perigo de desaparecerem completamente.

Compreendemos e aceitamos a não utilização destas infra-estruturas, em virtude das alterações que têm vindo a dar-se na vida das pessoa do campo, mas já não podemos entender, nem muito menos aceitar, a demissão dos poderes públicos na sua possível recuperação e preservação, a fim de não se perderem símbolos dum passado que tínhamos obrigação de transmitir às gerações jovens actuais e vindouras. O governo, através do Ministério da Cultura ou as câmaras municipais (neste caso, a de S. Pedro do Sul e a de Castro Daire) deviam desencadear acções que salvassem este património tão importante, acções essas que, em qualquer país civilizado, pertencem à rotina do dia-a-dia.

Claro que estamos a “pregar no deserto”. Basta passear um pouco por Portugal e observar o que se passa, mesmo em cidades e vilas, com mais visibilidade que as aldeias perdidas atrás dos montes onde, na sua maioria, se situam estas bonitas construções, ainda que na situação descrita, e observar a degradação que grassa em monumentos de grande valor histórico e cultural, para percebermos em que país vivemos.

Provavelmente, o Paiva será um dos rios portugueses que mais moinhos alimentava, em virtude do desnível das águas em muitos pontos do seu curso, dada a zona montanhosa em que corre. No espaço acima referido, que é curto, como se sabe, conhecemos uma meia dúzia de moinhos no Rio e, pelo menos, três no ribeiro do Sonzo.

Enfim, abordar estes assuntos é doloroso para qualquer um, mas de forma particular para quem, como nós, viveu e foi protagonista da realidade anterior e observador da actual e que, por formação, sente mais intensamente estes crimes de “lesa cultura”.

Texto e fotos de Norberto Gomes da Costa