O rio Paiva e a sua envolvente
O rio Paiva é, porventura, um dos poucos rios portugueses que ainda conserva a pureza que caracterizava todos os outros e a perderam com a “revolução industrial” que, embora tardia, chegou ao nosso País. Cumprindo um percurso por zonas nada industrializadas e até pouco povoadas, mantém toda a beleza que lhe advém das suas águas cristalinas e do enquadramento vegetal original e típico dos rios de montanha.
O Paiva é um afluente do Douro (o maior da margem esquerda) e nasce na serra do Leomil, na Beira Interior (concelho de Moimenta da Beira), para, serpenteando por entre montes e vales, se precipitar no Rio principal, já muito perto de Castelo de Paiva. Vários especialistas de ambiente, alguns de renome, ou simplesmente amantes da pesca desportiva e da natureza, se têm pronunciado acerca deste Rio. Já foi apodado de “o truteiro Paiva” (lembrar que as trutas só se dão em águas totalmente limpas), “o rio mais despoluído da Europa” ou até “ o único rio de que se pode beber a sua água”. Enfim, são opiniões, mas, sem dúvida, agradáveis de ouvir e ler, para nós que à beira dele nascemos e fomos criados.

(O Paiva e Nodar: uma simbiose perfeita)
Porém, o Paiva não é só deleite para os olhos de quem o contempla. Tem outra dimensão, (com mais incidência no passado, é certo), que é a vertente económica. Representou a sobrevivência de muitas gerações de seres humanos, ao longo de séculos e milénios, pois não podemos esquecer a abundância de peixe que vive nas suas águas e que alimentou, principalmente, em épocas de grande carência (catástrofes que a história nos conta), pessoas que a ele recorriam.
O Paiva, como afluente, é um rio de dimensões consideráveis, principalmente no Inverno. Uma miríade de sub-afluentes (ribeiros), vindos quer da Arada (margem esquerda), quer do Montemuro (margem direita), nele desaguam, dando-lhe um aspecto caudaloso e, por vezes, assustador em tempo de grandes cheias. O maior deles é, sem dúvida, o Sonzo, que, nascendo no Montemuro, entra no Paiva a montante de Nodar, a algumas centenas de metro da centenária ponte. É um ribeiro com bastante peixe, sobretudo trutas, o que o classifica como sendo um viveiro que alimenta o próprio Paiva. Vários moinhos de água, pertencentes a Nodar, agora parados e em ruínas, construídos em épocas ancestrais e desconhecidas, davam ao Sonzo uma personalidade muito própria, tornando-o indispensável para a vida das pessoa da aldeia, visto que era aí que moíam o milho, em grande parte do ano, para a sua subsistência. É com enorme tristeza que assistimos ao estado em que essas construções se encontram, já que, na nossa infância, levando o cereal e trazendo a farinha, também fomos protagonistas dessa autêntica “romaria” que era a deslocação aos moinhos, várias vezes ao dia.
A apreciação que fazemos deste Rio beirão pode considerar-se redutora, na medida em que não vamos além daquilo a que se convencionou chamar o Médio Paiva, uma extensão que, grosso modo, vai de Castro Daire a Arouca. É o troço do Rio que conhecemos relativamente bem e aquele sobre o qual podemos pronunciar-nos, correndo o risco, é certo, de alguma parcialidade, dada a relação afectiva que mantemos com a região e o seu rio.
Falando de coisas mais concretas, que peixes se podem pescar no Paiva? Mais de metade da população piscícola que vive nas águas do Rio é constituída por bogas. A seguir, e também em grande quantidade, vêm os barbos. As trutas (as famosas trutas do Paiva), as enguias e os bordalos são os restantes e talvez os mais apreciados pela gastronomia da região.
Quando falamos deste Rio temos, forçosamente, que realçar a sua relação muito estreita com a aldeia de Nodar. Provavelmente, a formação desse lugar só se explica à luz da existência do próprio Rio. São indissociáveis um do outro.
Sempre se praticou a pesca artesanal e amadora, com rede e chumbeira, em Nodar. Era inevitável essa prática levada a cabo sempre que os trabalhos do campo o permitiam, dada a proximidade que existe entre a aldeia e o Rio. Aliás, pode dizer-se que a alimentação dos seus residentes, em parte, sempre esteve dependente do Paiva. Hoje, claro, isso já não se verifica, até porque a proibição da pesca com rede quase pôs fim a essa prática milenar. Desde que nos conhecemos e até à década de 60 do século passado, assistimos e tomámos parte em pescarias orientadas e coordenadas por grandes pescadores que sempre Nodar teve. Em datas festivas era inevitável uma grande pescaria: pelo S. João, no S. Pedro e, sobretudo, pelo S. Macário, mais concretamente no sábado, pois o farnel para a festa sem bogas fritas não era merenda que se apresentasse. Essa pesca era feita com várias redes que um grande e velho pescador de Nodar, nosso particular amigo, António de Sousa (Redeiro), com toda a sua mestria, fazia. A jusante do poço atravessavam-se uma ou mais redes, consoante a distância que ia duma margem à outra. A montante, procedia-se do mesmo modo: essa rede ou redes eram puxadas pelas pontas (cabeção) por um garoto em cada margem, enquanto os pescadores, mergulhando, acompanhavam o arrasto até próximo da primeira rede, que estava estática. Aí, com todas as redes, fazia-se o rodo, encurralando o peixe que, tentando a todo o custo sair do cerco, acabava por ficar preso nas malhas do apetrecho de pesca. Era um espectáculo de rara beleza e alegria para todos.
A ponte, a grande ponte centenária do Paiva é, hoje por hoje, a “imagem de marca” de Nodar. Mas, “só” tem 118 anos!…E, antes de ela ser construída, como se fazia a travessia do Rio? A denominação do poço que é a actual praia fluvial dá-nos a resposta: Poço do Barco. Era aí, exactamente, que estava fundeada a embarcação que fazia a travessia do Rio, levando a bordo as pessoas, com os bens possíveis, que pretendiam passar para o outro lado. Ainda hoje existe uma família em Nodar, “os da barqueira”, cujo descendente mais próximo é Laurentino Várzea da Conceição, mais conhecido por Tino. A sua bisavó ainda foi barqueira, o que significa que conduzia o barco na travessia do Rio.
Várias histórias se contam acerca desse antigo transporte. Uma delas, talvez a mais deliciosa, foi-nos relatada por um carismático pescador da aldeia, Manuel de Paiva Andrade, pai de Augusta e Martinha de Paiva Andrade, habitantes de Nodar, falecido há mais de 50 anos. Essa pitoresca história ter-se-ia desenrolado do seguinte modo: Um almocreve, essa figura medieval que fazia o transporte de mercadorias para lugares mais ou menos inacessíveis, desejando atravessar o Rio com a sua mula, num dia de grande cheia, fê-la subir para o barco. A páginas tantas, a mula ter-se-á chegado muito para a borda da embarcação, de tal modo que esta se inclinou perigosamente, atirando o animal borda fora. Temendo pela alimária e a sua carga, o almocreve pediu a intervenção divina, oferecendo às almas uma recompensa pelo possível milagre, enquanto o animal se debatia nas águas agitadas, afundando-se cada vez mais: ó almas, pela salvação da minha mula, 20 réis. Nada aconteceu. Ó almas, 50 réis. Nada. Ó alma, 1 tostão. Nenhum sinal. Desesperado, o almocreve fez a derradeira oferta: ó almas, um c ……, que já não vejo as orelhas à minha mula!… Nesse momento a cilha rebentou, a carga afundou-se, e o animal veio à tona são e salvo. Uma história que não se pode comprovar, mas bastante verosímil, dada a fragilidade de uma pequena embarcação num rio revolto, em época de cheias, e a religiosidade (com alguns limites, é certo) das pessoas desses tempos.
Tendo em conta todos estes inconvenientes, a construção da ponte foi fundamental para a vida da aldeia de Nodar e toda a região do Médio Paiva, já que, numa distância de várias dezenas de quilómetros, passou a ser a única travessia do Rio. Como o Estado não financiava a obra (e nesse tempo não havia fundos europeus……), um mecenas, de seu nome Manuel Duarte Pinto de Almeida, tio-bisavô do Presidente da Associação Cultural de Nodar, Luís Gomes da Costa, e do actual Presidente da Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, que tinha conseguido, no Brasil, uma razoável fortuna, decidiu ele próprio gastar grande parte desse pecúlio na obra por que a sua terra e as aldeias circunvizinhas tanto ansiavam. Entretanto, foi-lhe concedida autorização para, logo que o empreendimento estivesse concluído, instalar uma portagem. Os habitantes de Nodar não pagavam nada, e os forasteiros uma quantia simbólica para assegurar a manutenção da estrutura. Tanto quanto nos recordamos, uma pessoa a pé pagava 1 tostão; a cavalo ou com um carro de vacas, 2 tostões. Estes valores eram praticados na década de 40 do século XX, quando o Estado Novo mandou abolir as portagens em todas as pontes do País, um vez que havia muitas na mesma situação. A portageira terá sido a mulher que tinha, até aí, desempenhado as funções de barqueira. Floriano Gomes da Costa, enquanto rapaz, foi o último cobrador dessa obrigação.
Algumas curiosidades acerca desse, para a época, grande empreendimento: a ponte custou 4 contos e 500 mil réis; toda a pedra de granito usada na sua construção foi transportada em carros de vacas desde o Gafanhão; os artistas levaram cerca de três anos a concluí-la. Como já foi referido e consta na lápide colocada junto às anteparas da mesma, a construção foi terminada em 1889, tendo a ponte entrado em funcionamento nesse mesmo ano.
Desde então, muitas e grandes cheias ameaçaram a agora velha ponte; todavia, nenhuma conseguiu derrubá-la. Fomos testemunha de algumas em que os arcos foram quase totalmente tapados, ficando as águas a cerca de um metro desse desiderato, o que, a acontecer, teria arrastado toda a estrutura.
Consta que, durante uma dessas grandes cheias, e na iminência duma catástrofe, Manuel Duarte Pinto de Almeida ter-se-á prostrado no tabuleiro da “menina dos seus olhos”, afirmando que, se a ponte caísse, ele iria com ela. Na verdade, isso não aconteceu e não aconteceria ao longo de mais de cem anos, de modo que a ponte de Nodar ainda aí está e estará (quem sabe?) durante mais alguns séculos, para o enriquecimento paisagístico de um dos recantos mais belos da região das Beiras.
Texto de Norberto Gomes da Costa