Nodar e o S. Macário
A romaria de S. Macário em meados do século XX
A 1052 metros de altitude, no limite da freguesia de S. Martinho das Moitas com a de Sul, do concelho de S. Pedro do Sul, situa-se o monte de S. Macário que alberga duas ermidas em honra do santo: o S. Macário de Cima e o S. Macário de Baixo. Não há memória da data da construção principal, a capela do cimo do monte, com o seu reforço amuralhado para protecção do vento que ali sopra forte, seja em que estação for. Alguns historiadores e arqueólogos dão conta da presença humana naquele local muito antes da formação de Portugal. Porém, ninguém consegue precisar, nem pouco mais ou menos, quando a referida ermida terá sido erigida. Muito venerado, atraiu S. Macário, desde sempre, um montante de esmolas considerável que revertia para a paróquia de S. Martinho das Moitas, o que terá gerado um conflito entre os abades das duas igrejas. Em 1769 – aqui conhece-se a data exacta – a paróquia de Sul consegue autorização do Bispo para a construção da capela do S. Macário de Baixo, na encosta a algumas centenas de metros da primeira, local duma gruta que teria servido de abrigo ao eremita, aquando da sua vivência em plena serra. E assim, a partir daquela data, as duas capelas concorrem no culto ao santo, que todos os anos, no último domingo de Julho, tem a sua festa presenciada e vivida por milhares de romeiros, vindo dos mais variados lugares do concelho e dos municípios vizinhos.

(A capela de S. Macário de Cima)
Existem muitas versões da lenda de S. Macário imortalizadas por poetas (v. o poema de Eugénio de Castro “A Tentação de S. Macário”) e que fazem parte do imaginário popular. Todavia, uma abordagem histórica que pudesse localizar no tempo a construção da capela ou mesmo a identidade do eremita (quem era e de onde veio), torna-se praticamente impossível, dada a inexistência de fontes credíveis. A história regista a existência de santos com esse nome em vários pontos do mundo, em especial no Médio Oriente, o que acaba por complicar a tentativa de o identificar.
Assim, o objecto destas notas não é de modo algum fazer a história, nem tão pouco abordar a lenda ou lendas que envolvem um dos santos mais populares da diocese de Viseu. Mas revisitar todo o alegre ritual que envolvia os grupos de pessoas das aldeias da margem direita do rio Paiva (ribeirinhas e serranas) e de Nodar, a caminho da romaria, numa época em que, por ausência de estradas, o automóvel não era o veículo privilegiado que hoje é, para o transporte dos romeiros: estamos a reportarmo-nos às décadas de 40, 50 e 60 do século passado, pensando que, apesar de tudo, as coisas não se terão passado de modo muito diferente nos séculos anteriores. Os romeiros, na sua maioria, faziam a viagem a pé e, dada a situação geográfica das suas localidades, eram forçados a utilizar a ponte de Nodar e a atravessar a aldeia, já que, numa extensão de várias dezenas de quilómetros, não havia outra passagem que não fosse a centenária infra-estrutura.
A partir do meio da semana, já os mendigos se dirigiam para o local da festa. Iam pedindo esmola de aldeia em aldeia para, no sábado à noite, o mais tardar no domingo de manhã, se perfilarem com toda a legião de pedintes que assentava arraiais no local da romaria, tirando partido da envolvência de fé que se respirava na ocasião. Recordamos que muitos pernoitavam, precisamente, em Nodar e eram o alvo preferido da pequenada, muitas vezes com atitudes desagradáveis, que eles suportavam com maior ou menor paciência.
As doceiras de Tendais, com as canastras repletas de ”pão leve” e rosquilhos (um doce redondo com um buraco no meio, e muito duro), antecipavam também a partida, fazendo algum negócio pelo caminho, e atingiam o alto da serra no sábado, montando então aí a sua tenda.
Chegava finalmente o dia da festa. Pela manhã, muito cedo ainda, já que o caminho era longo e o calor se fazia sentir logo que o sol raiava, ranchos de raparigas e rapazes, entoando cantigas tradicionais alusivas a S. Macário, cruzavam a aldeia de Nodar depois de atravessar a ponte, acordando e pondo em alvoroço a pequenada (como era o nosso caso), que àquela hora ainda dormia e, provavelmente, sonhava com o seu tão desejado dia de folguedo. A nossa memória guarda esses momentos de felicidade ímpar que o domingo de S. Macário nos proporcionava. Os coloridos cabazes de verga, que hoje são meras “peças de museu”, recebiam a merenda, onde não podia deixar de marcar presença o peixe do Paiva frito, produto da tradicional pescaria do sábado de S. Macário, mas também o cabrito assado e outras iguarias típicas da região; merenda essa antecipadamente preparada e entregue, no caso das famílias que possuíam um equídeo, ao elemento mais velho, a quem assistia o privilégio de utilizar a montada e o encargo de transportar o pitéu, que seria saboreado no alto do monte, à sombra, atrás duma fraga, dada a inclemência do sol àquela hora. Os restantes, e especialmente os jovens, faziam o trajecto a pé. A esse respeito, e tanto quanto a nossa memória nos recorda, podemos afirmar que a maior parte das famílias não tinha esse meio de transporte de modo que teria de encontrar entre os seus membros uma “vítima” para carregar com as vitualhas ou então revezarem-se nessa importantíssima missão.

(Jovens de Nodar, Sequeiros e Parada de Ester no alto do S. Macário em dia de romaria. Foto do final dos anos 40)
A poetisa Aurora Simões de Matos, natural da aldeia de Meã (concelho de Castro Daire), antiga aluna do colégio de S. Tomás de Aquino e nossa querida amiga, que na sua meninice fez algumas vezes essa viagem, num lindo poema que faz parte da sua obra Poentes de Mar e Serra, escreve :
“Na Encosta de Nodar
que subia até Parada,
muitas vezes esperei
em alta fraga sentada
ao fim de tardes distantes,
de dias de calmaria,
os cansados viajantes
e as canções que a voz erguia
dos romeiros viandantes.Tinham partido a rezar
manhã cedo, madrugada,
em bandos de cada aldeia,
a alma em fé inundada;
cabaz com farnel sortido,
por caminho já lendário,
por atalho escondido,
rumo ao Santo S. Macário
no Alto da Serra erguido.”
Com a alma e o corpo bem alimentados e o sol a caminho do Poente, iniciavam o regresso às suas aldeias, trajecto agora um pouco penoso: corpos derreados pelo calor e pelo cansaço, embora a cantar e a tocar, davam um ar menos alegre às revoadas que desciam a serra em direcção ao Rio. Uma ou outra zaragata, fruto de alguma mente toldada por um copo a mais, nada que um bom banho no Paiva não pudesse remediar, não ofuscavam o ambiente alegre e feliz que envolvia a romaria de S. Macário.
A poetisa do Paiva, ainda no seu poema dedicado a esse festivo dia, fala-nos desse retorno:
“Regressavam a cantar
depois de longa jornada,
de corpo todo partido.
Já bem perto de Parada
Na Encosta de Nodar,
os realejos tocavam
cantigas de bem amar;
“Cravos de papel” falavam
da Romaria sem par.”
Quem conhece ou acompanha o que a festa é actualmente e não tem memória do passado aqui referido, ao ler estas notas, imaginará porventura que nos reportamos a um tempo longínquo. Todavia, a realidade descrita acontecia há poucas dezenas de anos e evidencia o ritmo das transformações, a partir, principalmente, da década de setenta, que, para o bem e para o mal, pauta toda a nossa vida colectiva.
Texto de Norberto Gomes da Costa